As barragens de rejeitos são estruturas essenciais para a atividade de mineração, mas seu funcionamento e os métodos construtivos envolvem riscos que nem sempre são conhecidos pelo público geral. Entre as técnicas utilizadas, o alteamento a montante se destaca por ter sido amplamente empregado no Brasil – e também por estar no centro de tragédias ambientais e humanas. Neste artigo, explicamos como funcionam as barragens com alteamento a montante, desde o processo construtivo até as razões que levaram à sua proibição, passando pelos riscos e pelas alternativas mais seguras disponíveis hoje.
O que é o alteamento a montante? – como funcionam as barragens com alteamento a montante
O alteamento a montante é um método construtivo utilizado em barragens de rejeitos de mineração. Diferentemente de uma barragem convencional de concreto ou terra, que é construída toda de uma só vez, as barragens de rejeitos são elevadas gradualmente, à medida que o volume de resíduos da mineração aumenta. No método a montante, essa elevação é feita sobre o próprio rejeito já depositado.
Para entender melhor, vale conhecer o contexto. As barragens de rejeitos são estruturas projetadas para armazenar os resíduos sólidos e líquidos resultantes do beneficiamento de minérios. Como a produção é contínua, a barragem precisa crescer junto com a operação da mina. O alteamento a montante foi uma solução barata e rápida, mas que se mostrou extremamente arriscada.
Para diferenciar rapidamente: no método a jusante, o novo alteamento é construído sobre uma base estável a jusante do dique inicial; no método de linha de centro, o eixo da barragem permanece vertical. Já no alteamento a montante, cada nova camada avança em direção ao interior do reservatório, apoiando-se sobre os rejeitos já depositados. Essa característica é a origem principal de sua fragilidade.
Como funciona o processo passo a passo?
O processo construtivo do alteamento a montante pode ser descrito em ciclos repetitivos. Veja como funciona na prática:
- Construção do dique de partida – Primeiro, ergue-se um dique inicial de aterro compactado, geralmente de solo ou enrocamento. Esse dique serve como base e contenção para os primeiros rejeitos.
- Lançamento dos rejeitos – Os rejeitos, na forma de uma polpa (mistura de sólidos moídos com água), são despejados a montante do dique de partida, ou seja, para o lado interno do reservatório.
- Sedimentação e formação da praia – Ao serem lançados, os sólidos mais pesados sedimentam primeiro, formando uma praia de rejeitos inclinada em direção ao centro do reservatório. A água em excesso escoa e é drenada ou bombeada de volta para o processo.
- Consolidação da camada – Com o tempo e a drenagem, a camada de rejeitos perde parte da umidade e ganha resistência, tornando-se uma base aparentemente sólida.
- Novo alteamento – Sobre essa camada já consolidada, constrói-se um novo dique, geralmente com o próprio rejeito arenoso ou com material de empréstimo. Esse novo dique avança em direção ao centro do reservatório, ou seja, montante acima.
- Repetição do ciclo – O processo se repete indefinidamente, com novos alteamentos sendo feitos sobre as camadas anteriores, até que a barragem atinja sua altura final ou que a mina se esgote.
Quais são as vantagens e por que foi tão utilizado?
Apesar dos riscos, o alteamento a montante foi amplamente adotado no Brasil e em outros países por razões práticas e econômicas. Entre suas principais vantagens, destacam-se:

- Menor custo de construção – Por aproveitar o próprio rejeito como material de construção, o método reduz significativamente a necessidade de comprar e transportar solo ou rocha de áreas externas.
- Rapidez na elevação – Como a barragem pode ser alteada em intervalos curtos, acompanhando o ritmo da produção, não há necessidade de grandes obras de uma só vez.
- Menor volume de materiais externos – A área de empréstimo e o transporte são reduzidos, o que também diminui o impacto ambiental imediato da construção.
- Simplicidade operacional – O processo é relativamente simples e não exige tecnologia complexa, o que facilitou sua disseminação em um país com muitas mineradoras de médio e grande porte.
No entanto, essas vantagens econômicas e operacionais vieram acompanhadas de riscos que se revelaram catastróficos, como veremos a seguir.
Riscos, falhas e acidentes emblemáticos
O método de alteamento a montante apresenta vulnerabilidades estruturais graves, que foram evidenciadas por acidentes trágicos. O principal risco é a liquefação – fenômeno no qual um material granular saturado perde sua resistência ao cisalhamento quando submetido a um esforço súbito, como um abalo sísmico ou uma vibração. No caso das barragens, o rejeito arenoso e úmido pode se comportar como um líquido, rompendo a estrutura e liberando uma avalanche de lama.
Outros fatores de instabilidade incluem:
- Fundação sobre rejeito não consolidado – Como cada novo alteamento se apoia sobre a camada anterior de rejeito, que pode não estar completamente consolidada ou drenada, a base é intrinsecamente instável.
- Dificuldade de drenagem – O acúmulo de água no interior do maciço eleva a poropressão, reduzindo a resistência do material e aumentando o risco de ruptura.
- Linhas de fluxo preferenciais – A água pode percolar por caminhos irregulares dentro do rejeito, causando erosão interna (piping) e colapso.
Os dois exemplos mais emblemáticos no Brasil são os rompimentos das barragens em Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Ambos os desastres envolveram barragens construídas pelo método a montante. As consequências foram devastadoras: centenas de mortes, destruição de comunidades inteiras, contaminação de rios por quilômetros e danos ambientais irreversíveis. Essas tragédias mudaram a percepção sobre a segurança do método e aceleraram mudanças regulatórias.
Alternativas e medidas atuais de segurança
Após os desastres, o Brasil proibiu a construção de novas barragens de alteamento a montante e determinou a descaracterização (descomissionamento) das existentes. As alternativas mais seguras que ganharam espaço são:
- Alteamento a jusante – Cada novo alteamento é construído sobre uma base estável a jusante do dique inicial, apoiado em terreno natural ou em material compactado. É mais caro, mas muito mais seguro, pois não depende da resistência do rejeito.
- Método linha de centro – O eixo da barragem permanece na mesma posição vertical, e os alteamentos são feitos tanto a montante quanto a jusante. Oferece um equilíbrio entre custo e segurança, com melhor drenagem e controle.
- Disposição a seco – Tecnologias que filtram e desaguam os rejeitos antes do armazenamento, reduzindo drasticamente o risco de liquefação e facilitando o reaproveitamento da água.
Além disso, as barragens em operação passaram a ser submetidas a um monitoramento geotécnico rigoroso, com uso de piezômetros (para medir pressão de água), inclinômetros (para detectar movimentações), radares e sistemas de alerta sonoro. A fiscalização por órgãos ambientais e a transparência de informações também foram reforçadas.
É importante destacar que a proibição do alteamento a montante não resolve automaticamente todos os problemas. A descaracterização das barragens existentes é um processo caro e demorado, mas essencial para evitar novas tragédias. A sociedade precisa acompanhar de perto o cumprimento dessas medidas.
Entender como funcionam as barragens com alteamento a montante é mais do que um exercício técnico – é uma lição sobre os riscos de priorizar a economia em detrimento da segurança. Embora o método tenha sido útil em um passado de menor consciência sobre riscos geotécnicos, hoje sabemos que não há atalho seguro quando se trata de armazenar rejeitos de mineração. O caminho é investir em técnicas mais robustas, monitoramento constante e, sempre que possível, em soluções que reduzam a geração de rejeitos na fonte.

Engenheira Ambiental com mais de 12 anos de experiência em saneamento e gestão de recursos hídricos, Marina já atuou em projetos de tratamento de água em diferentes regiões do Brasil, incluindo comunidades afetadas por escassez severa. Apaixonada por transformar conhecimento técnico em informação acessível, criou o Site da Água para compartilhar, de forma simples e prática, tudo o que aprendeu sobre economia, qualidade e cuidado com esse recurso essencial.





